Jomar Silva dá palestra sobre formatos abertos e ODF para equipe Weblab
No mês de maio, Jomar Silva, especialista em padrões abertos junto à indústria de software, apresentou à equipe do Weblab uma palestra sobre o ODF (Open Document Format). Segue abaixo um resumo do que foi apresentado.
O que é ODF ?
Muitos de nós, usuários de Tecnologia da Informação, já teve pelo menos uma vez na vida a triste experiência de perder informações em um documento eletrônico por não conseguir ler o arquivo original, basicamente por não possuir mais o programa que foi utilizado para editar o arquivo originalmente (lendo este parágrafo, aposto que muitos de vocês se lembraram, com certo rancor ou nostalgia, do Carta Certa, Wordstar e programas do Lotus SmartSuite, não é mesmo ?).
Quando este incidente acontece em nossa vida como “pessoa física”, os prejuízos normalmente estão limitados ao campo pessoal e familiar, mas quando nos acontece em nossa vida “pessoa jurídica”, os prejuízos podem ser bem maiores e mais abrangentes.
Apenas como exemplo disso, perder um texto interessante que você se lembra de ter escrito na década de 80 ou 90 para a faculdade é algo que te deixa muito chateado, mas perder uma ata do Congresso Nacional da mesma época já é algo que nos preocupa e afeta a todos.
Desde que utilizamos suítes de escritório, deixamos de armazenar grande parte das informações relevantes para as nossas empresas e para a nossa sociedade em papel, tendo sempre em mente que a informação eletrônica irá durar mais tempo do que o papel. Infelizmente isso não é bem realidade, pois se o formato utilizado para o armazenamento das informações digitais for desconhecido, tão logo o produto de software desapareça do mercado, muitas vezes levando a empresa que o desenvolveu junto, as informações armazenadas por aquela aplicação não poderão ser facilmente recuperadas.
Não é a primeira vez que a humanidade cai nesta armadilha. Para citar apenas um único exemplo anterior, a civilização egípcia armazenou todas as suas informações através de uma forma muito peculiar de escrita, os hieróglifos. É evidente que naquela época todos pensavam que a capacidade de ler e escrever hieróglifos fosse eterna, mas infelizmente ela se perdeu pelos séculos e a humanidade ficou durante muito tempo tentando entender como os egípcios viviam, como haviam criado todas aquelas maravilhas arquitetônicas, como se organizavam socialmente e porquê gostavam tanto de desenhar nas suas paredes.
Somente através de um processo de engenharia reversa, com base na famosa Pedra da Roseta, um francês pode decifrar os hieróglifos em 1822, permitindo assim que se iniciasse o estudo mais detalhado sobre a cultura egípcia.
Gosto deste exemplo, pois nós seguimos a mesma trilha: armazenamos hieróglifos digitais durante os últimos 10 ou 20 anos.
Isso não foi feito de maneira acidental. Ao tornar os documentos dependentes das aplicações, criou-se uma dependência direta entre o futuro das organizações e as licenças de software que ela precisa ter para poder continuar suas operações. Isso criou uma situação de mercados cativos de suítes de escritório, que acabou levando a um monopólio de mercado durante a década de 90, tornando quase que requisito obrigatório de todo microcomputador a suíte de escritório de determinada empresa (e claro, seu sistema operacional também era fundamental para suportar a suíte de escritório).
Com o intuito de preservar informações para a longevidade, acabando com os hieróglifos digitais, e de dar novamente aos gestores de TI a verdadeira liberdade de escolha de suíte de escritório – e indiretamente de sistema operacional e arquitetura computacional – foi criado e desenvolvido desde 1999 o formato ODF, sigla de OpenDocument Format ou Formato Aberto de Documentos.
Seu desenvolvimento se iniciou em uma empresa alemã, que produzia a suite de escritório StarOffice e em pouco tempo se tornou um desenvolvimento aberto e acessível a todos os interessados, capitaneado por uma entidade internacional de desenvolvimento de padrões chamada OASIS.
O desenvolvimento do ODF conta e contou com a participação de diversas empresas e especialistas do mundo todo, garantindo assim a sua neutralidade tecnológica. Apenas para ilustrar, participam atualmente do desenvolvimento do ODF empresas como IBM, Sun Microsystems, Novell, Adobe e mais recentemente Microsoft.
Eu também, como representante da ODF Alliance, participo desde comitê e nele procuro sempre analisar as propostas feitas e apresentar algumas propostas com base na realidade de mercado existente em nosso país. Isso significa que o ODF continua evoluindo e que estou comprometido a sempre apresentar aos membros do comitê a realidade de TI e os casos de uso típicos de documentos de escritório que temos em nosso país.
A versão 1.0 do ODF, finalizada pelo OASIS em 2005 foi aprovada por unanimidade pela ISO em Março de 2006 como Norma Internacional, a norma ISO/IEC 26.300:2006. Em Maio de 2008, o ODF foi aprovado e publicado pela ABNT como norma brasileira, a NBR ISO/IEC 26.300.
Além de ser o primeiro país na América Latina a adotar o ODF como norma nacional, o Brasil foi ainda o primeiro país a recomendar a sua utilização através da e-Ping, ainda em sua versão 2.0.
Atualmente, diversos países, estados, municípios e organizações no mundo todo já adotaram ou recomendam a adoção do ODF. Esta lista é crescente assim como a lista de aplicações que suportam o padrão, indo desde aplicações móveis á aplicações web, como o Google Docs, passando por suítes de escritório disponíveis para diversas plataformas operacionais como o OpenOffice / BROffice (software livre que aliás teve sua excelente versão 3.0 lançada hoje), Lotus Symphony, StarOffice e até o Microsoft Office, que segundo a Microsoft, irá suportar o ODF nativamente no primeiro semestre de 2009 (existe ainda um plugin para o MS Office que permite a utilização do ODF com a suite de escritório agora mesmo).
Em resumo, o ODF é a escolha que te deixa escolher, não te prendendo a nenhuma suíte de escritório, sistema operacional ou arquitetura de hardware específicos. Além disso, garante que o documento gerado hoje possa ser aberto amanhã ou daqui a algumas décadas anos.
Para finalizar, costumo brincar dizendo que a utilização do ODF é uma questão de respeito ao próximo e cuidado, o próximo pode ser você mesmo, num futuro não muito distante...
Jomar Silva é engenheiro eletrônico, pós graduado em gestão de projetos e desenvolvimento de sistemas e Diretor Geral da ODF Alliance Chapter Brasil. Atua no mercado de TI desde 1996, com ênfase no desenvolvimento de software em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento para empresas do setor de Telecomunicações e Tecnologia da Informação. Atua ainda como "advisor" em padrões abertos junto a indústria de software. É coordenador do Grupo e Trabalho na ABNT que tratou da adoção do ODF como norma brasileira e membro do OASIS ODF TC (comitê internacional que desenvolve o padrão ODF). Para mais informações sobre o trabalho de Jomar acesse: http://homembit.com/









Comentários
Li sua matéria e achei um grande tratado...
Você me direciona para o único, mas qual a garantia de segurança nos arquivos ODF. Pois sempre soube que arquivos em formato pdf, possuem um estrutura que dificulta a transmissão de vírus, propagação de lixo eletrônicos na web.
Imagino que esteja sempre em desenvolvimento, mas qual a segurança que terei? Operei por muitos anos computadores em Linux e nunca obtive nenhum vírus entre esse período, mesmo abrindo tudo sem me preocupar com conteúdo, isso sim foi liberdade!
Hoje estou com o sistema operacional que me amedronta, pois se não tiver antivírus, não estarei seguro... que neurose.
Será que o sistema ODF pode me garantir segurança hoje se não possuir antivírus?
E a proposito fiquei ligeiramente decepcionado com o sistema que somente envia mensagens se o remetente possuir uma página.
Entao criei uma pagina rápida para te enviar essas questões, estarei melhorando em outro momento a pagina criada.
Eduardo
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